Que Para Mim Nunca Será Meia-Noite!

Que Para Mim Nunca Será Meia-Noite!

Querido Amigo,

Hoje celebramos por todo o mundo o  dia internacional do Autismo. Sabes que te escrevo por isso mesmo, pois também tu é um das mil milhares de pessoas com esta característica.

Escrevo-te porque estou contigo todas as semanas, sei dos desafios que os teus pais enfrentam todos os dias e porque, tal como milhões de pessoas, lembrei-me que o Autismo existe. Que é real e que se intrometeu na vida da tua família como um autêntico furacão, levando tudo o que estava lá desde inicio, firmemente à tua espera.

Se tens culpa disso? Claro que não. Como te poderiam culpar por teres a pele tão branquinha e os olhos tão escuros? O Autismo não conhece culpa. Não se apanha, não se pega, não se deseja e até tanto quanto sei hoje, também não se explica 🙁

A culpa também não é dos teus pais – apesar de muitas pessoas serem tão ignorantes que muitas vezes os fazem sentirem-se culpados. Lembras-te daquela senhora que disse à tua mãe que ela deveria educar-te melhor quando perdeste o controlo num parque infantil e bateste na tua mãe que a custo tentava dar-te um abraço apertado? Eu sei, ela não tinha o direito de dizer aquilo. Como poderia ela ter reparado que tens sensibilidade auditiva, que os sons que entram pelos teus ouvidos te magoam a sério que apesar de gostares de brincar com outras crianças, os seus gritos de alegria e as suas risadas estridentes são lidas pelo teu cérebro como uma agressão?

O que faria ela se tivesse uma criança que adora ir a parques onde estão outras crianças a brincar mas que quando lá chega encontra um ambiente tão imprevisível que não consegue dar respostas adequadas para acompanhar a brincadeira dos outros meninos?

Argghhh… Tão difícil e tão frustrante meu querido amigo!

Sabes aquela outra vez que os teus pais foram criticados por não te darem nada de comer a não ser sopa completamente passada e iogurtes sem pedaços? Como poderiam essas pessoas saber que tens defesa tátil, um problema que dificulta a simples tarefa de comer alimentos com diferentes texturas como o arroz, o peixe ou morangos? Como poderiam saber que o teu cérebro funciona de forma diferente?

Que aos 4 anos sabias ler as placas da auto-estrada sem que ninguém te ensinasse e aos 5 já sabias de cor os caminhos para todos os locais que ias com a tua família? Que aprendeste a tocar piano sozinho, só de ouvido? Que fazes puzzles de centenas de peças com uma facilidade incrível e que precisas de 5 segundos para memorizar um sitio para nunca mais te esqueceres. Que sabes os números e as letras em inglês, bem antes de conseguires falar?

Talvez não tivessem como saber. De qualquer forma perdoa-os. Perdoa-nos a todos, porque continuamos a olhar para ti e só vemos o problema!

No outro dia diziam-me: “Caramba, aquele teu amigo é mesmo autista!”.

O que tem mesmo muita graça porque a pessoa que me disse isso era mesmo gorda! Mas justiça seja feita, era também bastante inteligente.

Tenho medo que as pessoas olhem para ti e só vejam autismo. Uma pessoa gorda não é só gorda, certo?! Tem outras qualidades e defeitos, assim como tu!!

Ainda fico fascinado quando abres um livro de um museu qualquer e me dizes os nomes de todos os quadros e pintores. Tenho a certeza que um dia trabalharás num museu ou numa biblioteca enorme e ajudarás muitos jovens estudantes!

Por falar nisso, sei que estás a passar uns tempos difíceis na escola. Lembro-me que muitas te recusaram por teres autismo e sei que a que frequentas agora não é a ideal. Talvez a escola ideal para ti esteja ainda longe de ser construída mas eu espero que as pessoas percebam rapidamente que tu aprendes de outra forma e que se, hoje mesmo, juntassem 4 turmas ao calhas, a probabilidade de encontrarem uma criança com autismo ronda os 100%.

Sei bem que lutas todos os dias para estar atento na sala. Que a tua professora ainda não sabe que quando agitas as mãos e os braços ou te levantas da cadeira não estás a ser mal-educado ou a faltar-lhe ao respeito, estás apenas a manter-te regulado. Sei que acabas muitas vezes de castigo e sem recreio mas prometo-te que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para mudar tudo isto. Para mudar a maneira como te vemos, como falamos de ti, como te compreendemos e ajudamos. Prometo-te.

Prometo que isto não acaba no dia 2 de abril e que depois tudo volta a ser como era.

Prometo-te caramba!!

Que para mim nunca será meia-noite!

Um abraço do teu amigo, Marco
Ps: este texto não é ficção. Todas as coisas relatadas nele aconteceram mesmo, com diferentes crianças que conheci! Está na hora de mudar isso, não lhe parece? 

Em que é que vai trabalhar hoje?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *