Integração Sensorial – afinal falamos de quê?

Integração Sensorial – afinal falamos de quê?

A experiência e os dados estatísticos dizem-nos que em todas as turmas temos crianças que apresentam dificuldades em aprender de forma efetiva, acompanhar os colegas em brincadeiras mais coordenadas, em articular os sons e palavras corretamente ou dificuldades de alimentação. Embora as causas destes problemas sejam muito variáveis e muitas vezes até desconhecidas, muitas destas dificuldades poderão ser explicadas por uma ineficiência em processar estímulos sensoriais. Vamos falar sobre integração sensorial, uma capacidade desconhecida para muitas pessoas, mas com uma importância crítica.

Nos anos 60, nos Estados Unidos da América, Jean Ayres, uma terapeuta ocupacional com formação avançada em neurociências e psicologia começou a desenvolver uma teoria em torno da forma como o cérebro processa as sensações de modo a gerar comportamentos, pensamentos e ações. A Dra. Ayres estava particularmente interessada em investigar o impacto dos problemas de integração sensorial em crianças que tinham boas capacidades cognitivas mas que eram bastante trapalhonas, tinham dificuldades em acompanhar os pares nas brincadeiras e que, por motivos que ninguém conseguia explicar, mostravam dificuldades de aprendizagem!

No seu trabalho, encontrou uma definição para o termo integração sensorial que é usada ainda hoje: “A integração sensorial é um processo neurológico e inconsciente que interpreta as sensações provenientes do nosso corpo e meio externo e as organiza para o uso no dia-a-dia”.

A Teoria de Integração Sensorial é hoje bem fundamentada e clinicamente comprovada através de estudos científicos rigorosos, e felizmente cada vez mais famílias de crianças com disfunções de integração sensorial beneficiam deste apoio. Contudo, para muitas pessoas, esta forma de olhar para os problemas de desenvolvimento é nova ou confusa.

Por onde começar?

Quando falamos sobre integração sensorial falamos inevitavelmente de sensações! Provavelmente conhece alguns dos orgãos sensoriais que o nosso corpo tem, todos nós aprendemos sobre cinco deles na escola: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato. Mas talvez não saiba que existem mais. Dois que são muito importantes na teoria de integração sensorial e muito importantes para o nosso dia-a-dia são o sistema propriocetivo (ou proprioceção) e o sistema vestibular.

Tal como os cinco que já conhecemos desde pequenos, a proprioceção e o vestibular são sentidos que recebem a informação sensorial e a fazem chegar ao cérebro para que este a receba, processe e conduza para gerar uma resposta. Contudo, há uma pequena diferença entre os cinco sentidos e estes “novos” dois. É que enquanto a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato são considerados exterecetores (isto é, respondem a estímulos externos ao corpo), o sentido da proprioceção e o vestibular são propriocetores, ou seja, respondem a estímulos do próprio corpo.

E o que fazem eles ao certo?

Já pensou na importância do sistema tátil? Provavelmente não. Não se sinta mal, todo o processo é inconsciente, lembra-se? O sistema tátil é extremamente importante para tudo o que fazemos. Já experimentou procurar as chaves do carro na sua mochila enquanto tem as luvas colocadas? Extremamente difícil! Crianças que não têm um bom funcionamento do sistema tátil têm dificuldades, por exemplo, em sentir onde realmente colocar o lápis na mão para escrever ou pintar dentro das linhas.

E então quando come bacalhau, como distingue as espinhas das lascas de carne, cheia de “fios”? O seu sistema tátil informa o cérebro que um deles é bom de engolir e o outro… nem pensar!! Muitas crianças com problemas no processamento e modulação sensorial (modulação significa regular a intensidade do estímulo) não conseguem fazer a distinção entre estes dois elementos porque o seu cérebro interpreta o “fio” da carne de bacalhau como uma espinha. Esse estímulo é lido pelo cérebro como algo doloroso, conduzindo muitas vezes a sérios problemas de alimentação.

Certamente encontra formas fáceis de imaginar quão difícil seria o seu mundo se os seus sentidos da visão, audição olfato e paladar não funcionassem corretamente, por isso vamos explorar um bocadinho mais os nossos “novos sentidos”.

Se eu lhe pedisse para fechar os olhos e dizer-me para descrever como está o seu corpo, conseguiria fazê-lo? Provavelmente sim! Conseguimos perceber como está a posição das nossas pernas, braços, dedos- na verdade de todas as partes do nosso corpo – porque temos recetores nas nossas articulações e músculos que nos dão a posição do nosso corpo. Se lhe pedir para fechar os olhos e tocar no nariz ou no cotovelo consegue fazê-lo graças à proprioceção, por outras palavras, à sensação do próprio corpo.

Esta função é importantíssima para o dia-a-dia, quando queremos abotoar uma camisa, escrever ou desenhar e até quando precisamos de falar, o sistema propriocetivo envia informação ao nosso cérebro acerca da posição do nosso corpo para que a resposta seja eficaz! Quando o sistema propriocetivo não funciona corretamente a criança pode ter dificuldades em colocar as estruturas da boca, lábios e língua corretamente para produzir o som desejado. A diferença entre colocar os lábios para dizer um “be” e um “pe” é tão ligeira que só consegue ser produzida com um bom funcionamento do sentido da proprioceção.

Igualmente importante para o nosso dia-a-dia é a função do sistema vestibular. O sistema vestibular está localizado no nosso ouvido interno e reage à estimulação da gravidade e movimentos da cabeça. De forma muito geral, é o responsável pela nossa orientação no espaço, capacidade de localização do “eu” em relação ao meio externo e permite-nos manter um campo visual estável mesmo quando vamos em andamento. Em termos práticos, o sistema vestibular permite-lhe conduzir o seu carro e ler os outdoors, olhar para o gps e logo de seguida para a estrada sem perder a orientação e controlo do carro. Embora haja pessoas com sistemas mais reativos do que outros, a maioria das pessoas consegue funcionar de forma adaptativa nas suas ocupações. Mas se por algum motivo este sistema não funcionasse corretamente, os seus níveis de desempenho iam ser gravemente afetados. Há uns meses atrás circulavam nas redes sociais vários vídeos que mostravam pessoas a rodarem sobre um pau e que tentavam depois dar um pontapé numa bola. Resultado? A grande maioria caía redonda no chão antes sequer de conseguir chegar perto da bola. Porquê? porque o sistema vestibular foi sobre-estimulado! Acontece que a sua relação com o equilíbrio é tão forte que é praticamente impossível mantermos o equilíbrio do corpo se o próprio sistema vestibular (aquele pequeno aparelho no ouvido interno) não estiver também equilibrado.

Quantas vezes viu crianças com dificuldades de equilíbrio? Crianças que parecem trapalhonas, com dificuldades de distinguir direita e esquerda, e que apresentam dificuldades em copiar do quadro para o caderno? Muitas dessas crianças poderiam apresentar um sistema vestibular muito reativo enquanto outras poderiam apresentar um sistema vestibular pouco ativado.

Outra especificidade do sistema vestibular é que é um dos primeiros a desenvolver-se – ainda no útero – e sendo um dos mais antigos no nosso sistema nervoso apresenta imensas ligações a outras áreas do cérebro, por exemplo aquelas relacionadas com a postura, perceção visual e linguagem.

Se nunca ouviu falar de integração sensorial não se espante. A verdade é que poucas pessoas conhecem esta competência do nosso cérebro. Porquê? Porque ela deveria acontecer de forma automática, tal como a nossa digestão.

Mas quando é que isto é um problema?

Falamos em Disfunção de Integração Sensorial (ou Desordem do Processamento Sensorial) quando as dificuldades em interpretar as sensações externas e internas causam problemas na participação e desempenho das crianças nas suas rotinas e ocupações.

Pegando no exemplo da digestão, podemos pegar nas palavras de Ayres para dizer que “a disfunção de integração sensorial é para o cérebro o que a indigestão é para o intestino”. Disfunção significa então, um “mau funcionamento”, o que será o mesmo que dizer que o cérebro não está a funcionar corretamente e não está a processar ou organizar a invasão de estímulos sensoriais que chega a todo o segundo.

O termo disfunção significa que, provavelmente, não há uma lesão real na estrutura do cérebro, e que o problema poderá ser revertido ou minimizado. Tal como uma indigestão não significa que haja uma lesão no intestino.

Tipos de problemas relacionados com uma ineficiente integração sensorial:

A criança:

– Parece ter dificuldades em coordenar os dois lados do corpo para atividades como pedalar, saltar ao pé-coxinho, recortar com tesouras;
– Parece demasiado trapalhona e/ou com pouco equilíbrio;
– Tem dificuldades em sentar-se corretamente e por tempo adequado nas atividades de mesa, deitando com frequência a cabeça por cima da mesa;

– Não tem dominância manual definida depois dos 6 anos de idade;
– Tem problemas em realizar movimentos de forma suave e graciosa;
– Não gosta de baloiços nem de atividades que impliquem tirar os pés do chão;
– Bate constantemente contra mobília ou outras pessoas enquanto corre;
– Tem dificuldade em brincar com outras crianças, optando por ficar a vê-las;
– Reage de forma muito negativa a barulhos altos como o aspirador, secador ou batedeira;

– Parece não ter novas ideias para brincar, brinca sempre com as mesmas coisas e da mesma forma;
– Mostra-se muito lento para aprender novas capacidades;
– Parece ter músculos fracos;
– Reage negativamente a etiquetas, abraços e toque leve;
– Chora imenso para cortar as unhas e o cabelo ou até para tomar banho de chuveiro;

– Entre outros…

O que fazer para ajudar?

Se suspeita que a sua criança pode ter problemas em processar a informação sensorial procure um terapeuta ocupacional especializado na Teoria de Integração Sensorial de Ayres para que ele possa conduzir uma avaliação compreensiva da criança e o possa ajudar a perceber melhor como desencadear estratégias para tornar o dia-a-dia mais fácil.

Se por outro lado, é profissional de saúde e pretende aumentar o conhecimento nesta área poderá sempre consultar a página da 7Senses (www.7senses.pt) e consultar a oferta de formações nesta área.

Revista Top - Integração Sensorial

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