Hiperatividade de imprensa!!

Hiperatividade de imprensa!!

Recebi esta mensagem de uma colega: “Marco já viste!? Quem nasce em agosto tem mais probabilidade de ser diagnosticado com hiperatividade!” Achei desde logo estranho mas lá fui ver do que falávamos!

Acontece que a Revista Visão partilhou o seguinte artigo: “Encontrada ligação entre o Transtorno do Défice de Atenção e Hiperatividade e o mês de nascimento“, e caso não queira ler mas esteja curioso para saber o mês… é Agosto!
Agora que já sabe, está a fazer contas à vida, a pensar se deverá planear a gravidez para outro mês, se o seu filho nascer em agosto como vai ser… e no caso de ter um filho bastante mexido que tenha nascido em agosto provalmente vai dizer: “AHHH! Eu sabia!!!”. Mas se realmente souber que hiperatividade é uma perturbação de desenvolvimento que nada tem que ver com o signo de quem nasce, vai achar isto tudo muito estranho!

Bem, descanse! A verdade é que a conclusão do estudo não é, DE TODO, essa!

O que este estudo encontrou foi uma forte correlação entre diagnósticos de hiperatividade e medicação em crianças nascidas em agosto! Isso quer dizer que as crianças nascidas em agosto correm riscos de ser hiperativas?? — não mais do que aquelas que nascem noutros meses, não!! — MAS!! É importante percebermos o seguinte:

Os investigadores deste estudo “sublinham que, em Taiwan, as aulas começam em agosto, o que significa que as crianças nascidas neste mês são praticamente um ano mais novas do que os seus colegas de turma nascidos em setembro do ano anterior”!!!!

E mais…

O mesmo artigo aponta que “Estudos anteriores, como este, realizado no Canadá, onde entram no primeiro ano os meninos nascidos até 31 de dezembro, descobriu que estes tinham também maior probabilidade de virem a sofrer do TDAH!” (quero só realçar que <<sofrer do TDHA>> não é uma expressão que me deixe nada confortável).

Então o que podemos verdadeiramente concluir é: Crianças que nascem no mês da entrada para a escola primária têm mais probabilidade em ser diagnosticadas com uma Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção.

Imagine o cenário, tem um sobrinho que nasceu em janeiro e um filho que nasceu em dezembro do mesmo ano. Este setembro os dois primos entram para o 1º ano. O seu sobrinho tem 6 e fará 7 anos em janeiro (daqui a uns meses na verdade)! O seu filho tem 5 e fará 6 anos em Dezembro (daqui a uns meses) mas só fará 7 daqui a um ano!!!!

Quer dizer que entre estas duas crianças existe um intervalo de cerca de 1 ANO!!!! no desenvolvimento.

O primeiro ano é um ano cheio de novidades e exigências que são muitas vezes colocadas bem acima das capacidades das crianças! O que vejo acontecer várias vezes nas crianças que me chegam para avaliação é que este diagnóstico de Hiperatividade é motivado por estas exigências em crianças que ainda não estão preparadas a nivel emocional, físico e desenvolvimental (desenvolvimento neurológico, sim!) para poderem lidar com todas as tarefas que lhe são pedidas!

Aquele estudo realizado no Canadá conclui o seguinte: “Estes resultados elevam a preocupação com um eventual sobrediagnóstico e sobreprescrição de medicação em crianças tão novas. Esses fenómenos podem causar efeitos adversos no sono, apetite e crescimento, bem como aumentar o risco de problemas cardiovasculares”.

A notícia da Visão deveria ser algo do género: “Crianças que entram mais cedo para a escola correm mais riscos de serem diagnosticadas com hiperatividade!”.

Se o seu filho nasceu depois de 15 de setembro saiba que tem o poder para decidir se ele entra ou não para a escola com cinco anos. São as chamadas crianças condicionais. E estas devem ser devidamente avaliadas a todos os níveis (emocional, fisico, neurológico…) para sabermos se realmente isso é o melhor para elas!

Em que é que vai trabalhar hoje?

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