Epistemologia, Ciência e Terapia Ocupacional

Epistemologia, Ciência e Terapia Ocupacional

Se atentarmos numa definição simplificada de ciência podemos facilmente encontrar ressonância em Alexander Bird quando refere que o objetivo da ciência é a geração de conhecimento científico (Bird, 2010). Sempre pensei que seria assim tão simples.

Definir ciência não é, no entanto, tarefa assim simples ou fácil mas para o intuito deste trabalho foquemo-nos na definição de ciência por Ander-Egg (1978) “A ciência é um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza”. Podemos então agora fazer um ponto de partida para a ciência da terapia ocupacional. A terapia ocupacional surgiu, como profissão de saúde, nos Estados Unidos da América para ajudar pessoas “incapazes”, sofredoras da doenças mentais e durante dois séculos as formas de intervenção e os seus objetivos foram dando primazia ao envolvimento de pessoas em atividades terapêuticas, enquanto as técnicas de intervenção iam sendo constantemente alteradas. A 15 de março de 1917 a terapia ocupacional é formalmente apresentada ao mundo através da criação da National Society for the Promotion of Occupational Therapy (NSPOT).

Nesta altura, havia já um claro sentido de missão, os terapeutas ocupacionais acreditavam – e acreditam – que as pessoas podem influenciar a sua saúde através do uso das suas mãos, mentes e vontades (Meyer, 1922 cit in Hooper, 2006). Esta é, desde então, a grande hipótese por detrás da ciência da terapia ocupacional (Yerxa, 1992), representando também um paradigma fiel à sua criação: O paradigma da Ocupação.

Crescendo numa época de desassossego com várias guerras civis e a entrada repentina na Primeira Guerra Mundial, a terapia ocupacional desenvolve-se, com a pressão da medicina, para responder a um novo objeto: a necessidade de cura e reabilitação de tantos lesados em guerra (Kielhofner, 2009).
Era então importante confirmar esta hipótese e criar métodos específicos de investigação em terapia ocupacional, era crítica a necessidade de torná-la uma disciplina científica. Desta forma os conceitos usados na prática diária poderiam ser transformados em objetos mensuráveis e desta forma estabelecer leis de causalidade que pudessem explicar e prever os fenómenos ocorridos (Yerxa, 1992).

Esta “nova” visão é claramente baseada no Positivismo de August Comte que postula a rigorosidade da demanda científica, exigindo factos, precisão e objetividade. A terapia ocupacional entra então num novo paradigma onde a necessidade de ser uma ciência rigorosa assume contornos históricos.

“Protegida” pela medicina assume um novo objeto: a reabilitação. Reajusta-se às demandas da crise social envolvente e como o paradigma anterior deixa de dar respostas para intervir com clientes fisicamente traumatizados desenvolve um Paradigma Mecanicista.

Saiba o leitor que tem sido assim ao longo dos anos. Na verdade, trinta anos após esta mudança (1970s) assiste-se a uma nova reorganização no seio da Terapia Ocupacional. Um renascimento da ocupação como objeto (Iwama, 2003) desencadeando uma série de intervenções suportadas em evidência científica, baseadas no cliente e centradas na ocupação, procurando promover o bem-estar biopsicossocial da pessoa (Kielhofner, 2009).
Mas estas mudanças tiram a credibilidade à Terapia Ocupacional? Não, caro leitor, pelo contrário.

Thomas Kuhn mostra-nos uma visão descontínua de ciência, apresenta-nos duas ciências que diferem entre si. Uma ciência normal, que utiliza paradigmas para criar ordem e aceitação até que surjam novas crises, e uma ciência extraordinária emergente dessas mesmas crises face à necessidade de se obterem respostas que expliquem fraturas dogmáticas. A ciência é vista por Kuhn como algo descontínuo e não cumulativo (Kuhn, 2010).
A história e o desenvolvimento da terapia ocupacional têm-se feito acompanhar de grandes transformações e que lhe permitem, nos dias de hoje, uma maior aceitação científica.

Atualmente os terapeutas ocupacionais atuam em vários contextos sociais, em diversas áreas de saúde e educação e complementam os seus conhecimentos científicos com a indução de alguns valores adquiridos empiricamente. Conhecimento científico é constantemente produzido na área da terapia ocupacional e é por isso necessário que estejamos atentos e que consigamos orientar a produção de ciência de forma consciente.

Eis que entra o conceito de epistemologia. Agra (1986) define epistemologia como a bússola do conhecimento e Morin (1994) reforça esta definição com o “apelo” a uma ciência com consciência. De certo modo é a Epistemologia que orienta a produção científica e propõe mudanças nas verdades que temos, baseando-se em dimensões sociais, económicas e culturais e pautando a “agressividade do conhecimento”.

Como nos refere Michel Foucault quem produz conhecimento detém o poder e enfrentamos hoje uma sociedade sedenta de poder, sedenta de informação, de conhecimento (Foucault, 1979).

Ao trabalhar com famílias de crianças com perturbações de desenvolvimento apercebo-me muitas vezes do desespero dos pais que procuram os meus serviços. Estes pais são encaminhados para a terapia ocupacional sem saberem, muitas vezes, porquê. Preocupam- se apenas com uma coisa – como encontrar ajuda.

É aqui que gostaria de dar a minha opinião pessoal e apoiar-me nos conceitos básicos de epistemologia para justificar a necessidade urgente em trazer-se a cientificidade já demonstrada na investigação da terapia ocupacional para a nossa práxis diária.

Ser clínico implica também ser-se cientista.
Implica, como afirma Bachelard a rutura com o senso comum e a iniciação de um pensamento científico, crítico e factual (Bachelard, 1996). Implica também a dúvida e o questionar constante. O porquê de se realizar aquela técnica, o porquê daquele protocolo e implica ser-se verdadeiro, transparente, acima de tudo, questionar-se.

Na sua prática diária, os terapeutas ocupacionais devem pois usar uma metodologia científica e, tal como Karl Popper defende, gerar hipóteses falsificáveis, deduzindo das teorias em vigor a melhor intervenção (Silveira, 1996). O praticante deve pois, procurar ser exímio a testar as suas hipóteses, não ter medo do erro e assumir que o erro poderá estar presente, ajudando assim ao avanço do conhecimento.

Procurar falsificar as teorias atuais deve ser uma preocupação de todos os que trabalham no campo da saúde, onde constantemente vemos mudanças de paradigmas, cortes e obstáculos epistemológicos e desacreditação do que damos por garantido. Se o conhecimento gera poder, cabe-nos a nós gerar conhecimento para que o serviço que prestamos seja o melhor possível. Hoje.

Em que é que vai trabalhar hoje?

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