Terapia Ocupacional – o Karma da Ocupação

Terapia Ocupacional – o Karma da Ocupação

“Agora, ainda no cabeçalho, logo após o vosso nome vão colocar a vossa ocupação!” dizia o homem que guiava aquele grupo de pessoas no preenchimento de um inquérito de opinião.

Professores, terapeutas, engenheiros, contabilistas, costureiras e até um canalizador, precipitaram-se a escrever a sua profissão no boletim.

“Mas eu.. eu não trabalho!” – dizia num desabafo alto a Dª Amélia, uma senhora de meia-idade sentada na fila da frente – “não tenho profissão!”

“Diga-me minha senhora, o que é que é mais importante para si? Das centenas de coisas que faz todos os dias, qual a mais importante para si?”

“Bem, o que eu mais gosto é de cuidar dos meus filhos. Na verdade, sinto-me bem em casa a organizar a vida de família, ajudá-los a terminarem os trabalhos de casa, até lidar com as birras deles me preenche!”

“Isso!! Essa é uma excelente forma de descrever uma ocupação. Quando pensamos numa ocupação, não falamos apenas de uma profissão ou de um hobby, mas sim de algo que nos dê uma identidade. Algo que nos enquadre dentro de um grupo – o conjunto de mães e donas-de-casa – que tem os mesmos papéis do que nós! Esta ocupação representa uma grande variedade de actividades significativas, tais como ajudar os filhos nos TPCs, vesti-los, dar-lhes mimo e até ralhar-lhes quando tem que ser. Isso é ocupação!”

“Ocupação” – deixava escapar a Dª Amélia – tudo aquilo que realmente importa.”

Como Terapeuta Ocupacional, derreto-me sempre com este pequeno episódio. Na verdade ele retrata de forma exímia a importância que o termo “Ocupação” tem na nossa vida enquanto profissionais de saúde e na vida das pessoas que acompanhamos. E pensar que houve tantas vezes que desejamos não o termos na nossa designação profissional! Porque ocupação representa ocupar, o que leva as pessoas a pensarem que os terapeutas ocupacionais ocupam os outros ou que as sessões com as crianças que acompanhamos todos os dias são o exemplo de um OTL (ocupação de tempos livres) em 50 minutos.

Mas… quando somos feitos todos de carne e osso, não são as ocupações que nos distinguem? Aquilo em que focamos a nossa energia, aquilo a que dedicamos o nosso tempo, aquilo que fazemos. “Então e tu, o que é que fazes?” perguntamos a quem conhecemos pela primeira vez! A Ocupação importa!!!! E somos nós que lhe damos essa importância!

A verdade é que quando algum factor (físico, mental, ambiental,etc.) nos impede de desempenharmos e nos envolvermos satisfatoriamente nas nossas ocupações, passamos por tempos muito difíceis. Começamos a duvidar de nós porque não temos identidade, sentimo-nos afastados da sociedade, porque não pertencemos a nenhum grupo que faça coisas! Certamente conhece pessoas que passaram por um processo depressivo quando perderam o emprego, quando se reformaram e os seus papeis ocupacionais mudaram, até quando engravidaram e a mudança de hábitos e rotinas levou a uma destruturação da imagem que tinham delas próprias, ou então alguém que sofreu um AVC e lhe disse que o “corpo já não presta, já não sabe fazer”. Em todas estas situações o papel da Terapia Ocupacional é só um… e sempre o mesmo!

Aumentar a participação do indivíduo numa ocupação significativa para ele.

Quer ela já tenha existido ou não. O Terapeuta Ocupacional avalia sistematicamente não só a pessoa, os seus pontos fortes e as suas fragilidades, mas também os contextos onde a pessoa actua, envolvendo-a no processo terapêutico, para em conjunto, potenciar, reabilitar e/ou adaptar para um desempenho ocupacional satisfatório. Isto é o que nos importa a nós Terapeutas Ocupacionais: dotar a pessoa que temos a nossa frente de capacidades que a permitam ser o mais participativa possível em todas as suas ocupações mais significativas.

E este é o Karma da Terapia Ocupacional, o nosso Karma! Estarmos condenados a bater-nos com uma palavra gasta que deambula entre a “mera ocupação do tempo” e a mera ocupação da vida: “tudo o que realmente importa”.

Da próxima vez que a sua identidade ocupacional se vir ameaçada, contacte um Terapeuta Ocupacional, ele saberá como ajudar.

Marco Leão, Terapeuta Ocupacional

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