O seu filho não come! Mas não é porque é mal-educado.

O seu filho não come! Mas não é porque é mal-educado.

De todas as preocupações que os pais das crianças que eu acompanho apresentam no dia do acolhimento, esta é certamente a que mais os aflige!

“O meu filho não come. Eu não sei o que lhe faça mais, já tentamos de tudo, às vezes ainda experimenta uma coisa ou outra mas é muito raro!! Só consigo dar-lhe sopa ou fruta passada, por vezes come puré… mas se tiver alguma coisa misturada, acabou-se (…) carne?! nem pensar, só ralada na sopa!”

Infelizmente, relatos destes são bastante frequentes e os pais sentem-se obviamente desesperados quando os seus filhos não mostram vontade em comer ou tornam-se tão seletivos que é praticamente impossível alimentá-los de forma saudável e sem criar situações stressantes quer para a criança quer para quem a alimenta.

Esta questão é complexa obviamente! Tão complexa que é literamente impossível descrever e justificar um problema de alimentação ligando-o apenas a um factor. Por exemplo, muitas pessoas acham que os problemas de alimentação são “apenas” problemas de comportamento! “Põe o teu filho uma semana em minha casa e tu vês se ele não come!!” Já ouviu isto?

É claro que personalidades mais conflituosas, e em boa verdade, idades mais conflituosas podem levar a estes problemas, contudo são cada vez mais os casos em que as dificuldades de alimentação têm uma base neurológica e não apenas comportamental… vejamos!

Apesar de o acto de comer ser um processo natural, que todos nós fazemos com relativa facilidade, há uma série de processos que justificam e acabam por definir o que comemos, quando comemos e porquê!

Em 2015 numa formação que dei em conjunto com a Terapeuta da Fala Isabel Varela criamos uma ilustração de influências no processo de alimentação nas crianças que acompanhávamos.

processo alimentar

Provavelmente haverá mais factores a influenciar este processo, mas estes ajudam-nos a perceber o porquê de não podermos considerar a alimentação de uma forma tão simplista como simplesmente engolir um pedaço de comida.

Na alimentação intervêm os factores da:

Cultura: Como o sítio onde nascemos, ou as experiências que tivemos, ou mesmo o contexto em que estamos inseridos! Era capaz de comer gafanhotos? Na China comem. E peixe cru, comeria? Bem, à primeira vista não, mas e então aqueles jantares de sushi com os amigos? A própria cultura de casa influencia a alimentação. Há crianças que comem a toda a hora e em qualquer local, contudo, muitas crianças precisam de rotinas mais estáveis como comer sempre à mesma hora, sempre na mesma mesa e ter a mesma rotina de “ir para a mesa”, se estas rotinas mudam ou se mudam os contexto a criança sente-se insegura e pode mostrar mais resistência a comer.

Visão: “Os olhos também comem”, certo? Quantas vezes já decidiu um prato em vez de outro simplesmente pelo aspecto? Todos nós fazemos isso. Na verdade, a nossa visão serve não só para nos ajudar a decidir qual o alimento mais apetitoso mas também o que poderá ser prejudicial. Normalmente, crianças com Autismo recorrem imenso ao sistema visual para decidirem se comem o que está no prato ou não, desta forma, elas identificam se os alimentos podem ser dolorosos ou não para eles. Se acharem que sim, não vão comer! Crianças com problemas de alimentação confiam na sua visão para aceitar ou rejeitar alimentos que possam ser prejudiciais baseados naquilo que já experimentaram. Por isso é que as vezes nem sequer chegam a experimentar novos alimentos.

Reatividade Sensorial: O nosso sistema tátil é responsável, entre muitas outras coisas, por nos dar a sensação de dor. Algumas pessoas mostram uma maior tolerância à dor do que outras, certo? Para percebermos este factor, vamos pegar no exemplo das crianças com Autismo novamente. Imensos artigos e livros científicos comprovaram que crianças com Autismo apresentam uma maior reatividade, ou seja, uma menor tolerância, a sensações tácteis… como por exemplo a dor. O que quer dizer que sentem dor com coisas que não têm esse efeito para a maior parte das pessoas. Por exemplo, podem sentir (genuinamente) que os “fios” da carne/peixe ou da couve da sopa que ficou mal passada são perigosos pois o cérebro interpreta-os como espinhas, digamos! Você continuaria a comer as espinhas? Algumas manifestações comportamentais de recusa e choro por parte das crianças são reações a esta dor.

(ps: muitas crianças que não estão diagnosticadas com Autismo também apresentam reatividade sensorial).

Capacidade Oromotora: As capacidades orais evoluem com o nosso desenvolvimento. Um bebé não tem a capacidade que tem uma criança de 8 anos para comer carne, como todas as capacidades no ser humano, as capacidades oromotoras vão-se desenvolvendo por etapas, no tempo certo, umas em cima das outras, crescendo em níveis de complexidade. Assim, da mesma forma que há crianças a precisarem de ajuda para gatinhar, ou para começarem a andar, porque o seu desenvolvimento está comprometido, também há crianças que precisam de ajuda para desenvolverem as suas capacidades orofaciais ou oromotoras. Se estas não funcionarem corretamente, pode ser muito difícil mastigar ou até engolir e a criança deixa de ter interesse na comida, porque tem muita dificuldade em comê-la.

Componente Gástrica: Infelizmente, os problemas gastrointestinais são algo que surge cada vez mais. Quando trabalho alimentação com uma família, certifico-me sempre que os pais conseguem um exame gástrico para o seu filho. Assim, descartam-se complicações como alergias alimentares, intolerâncias a componetes alimentares, etc. São cada vez mais os relatos de crianças que não comiam, ou vomitavam tudo o que tentavam comer por terem problemas destes e que só mais tarde foram descobertos. Se o seu filho apresenta dificuldades alimentares fale com o seu médico e faça o exame.

Área emocional: Como pode calcular, quando surge alguma dificuldade no processo de alimentação, é normal que se desencadeiem uma série de emoções e ligações afetivas negativas aos alimentos ou à própria rotina de sentar à mesa para comer. Se realmente há algo que provoca dor, comer deixa de ser algo prazeroso para passar a ser uma “ida ao dentista” em que só vamos porque tem mesmo que ser! Muitas vezes, os adultos tem também alguma responsabilidade nesta área, por exemplo quando obrigam a criança a comer à força estão a aumentar a sua recusa a esse momento stressante.

Como já foi dito, a alimentação é um processo muito complexo, daí que seja difícil de resolver qualquer dificuldade associada a esta atividade de vida diária (AVD). Quando trabalhamos com problemas a este nível contamos com uma equipa multidisciplinar em que, dependendo do caso, o Terapeuta Ocupacional trabalha em conjunto com o Terapeuta da Fala, o Psicólogo, o Nutricionista e o Pediatra que acompanham a criança.

Se a sua criança precisa de ajuda para comer e se esse processo é muito mais forçado do que natural, fale com o seu pediatra e procure um terapeuta ocupacional. Uma avaliação cuidada pode orientá-lo no caminho certo.

NÃO FORCE!!! Comer é algo natural. Se uma criança não tem desejo de comer, ou se chora neste processo. Algo está mal, procure encontrar a resposta para isso.

Links úteis:
www.7senses.pt
www.terapiaocupacional20.com
www.ap.to.pt

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